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Crônicas da Querência

Crônicas e contos sobre o campo, a cultura gaúcha e a alma do homem simples

Onde o Silêncio Aprendeu a Voar

novembro de 2026 · crônica · por Eloir

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Casa de madeira de telhado de barro ao fundo, um ipê amarelo florido e uma caixa de abelhas jataí presa ao tronco, entre flores coloridas no jardim

Sempre achei que silêncio e sossego eram a mesma coisa. O meu pátio era quieto que nem amanhecer de domingo na querência. Só a aragem proseava baixinho com as folhas do velho ipê e, de vez em quando, um sabiá riscando o céu com a sua cantoria. Eu pensava que, quando a natureza se aquietava daquele jeito, era porque Deus tinha passado por ali e deixado tudo bem aprumado.

Até que um dia o compadre Aluir, lá da Linha Bonitinho, apareceu na porteira. Apeou do cavalo, bateu de leve a poeira da bombacha, pegou uma caixa de madeira debaixo do braço e veio chegando com aquele sorriso manso de quem traz notícia boa:
— Trouxe um tanto de vida pra ti.

Dentro da caixa morava uma colmeia de jataís. Abelhinhas pequenas, sem ferrão, mansas que só elas. Amarelas-ouro, pareciam fagulhas de sol com asas. Voavam sem afobação, como quem conhece o rumo do vento e sabe que toda viagem tem o seu tempo.

Confesso que estranhei. Eu, que me criei respeitando enxame bravo e aprendendo que abelha era bicho de manter distância, agora ia cuidar daquelas pequeninas que mais pareciam um pedaço vivo da própria criação.

Escolhi um canto bem debaixo do velho ipê de flores amarelas e acomodei a caixa. Em volta plantei alecrim, manjericão, alfavaca e umas flores bem faceiras. Era como preparar o galpão pra receber um compadre de longe: primeiro a casa, depois o coração.

Os dois primeiros dias passaram quietos. Um silêncio comprido, daqueles que a terra guarda antes de acordar uma semente. Na manhã do terceiro dia, alguma coisa mudou.

Primeiro veio um zumbidinho fino, igual gaita-ponto sendo afinada no romper da madrugada. Depois o ar foi se enchendo daquele cantar de asas. Quando me dei conta, o pátio inteiro estava vivo. As jataís iam e vinham num bailado ligeiro. Pousavam nos tomateiros com o carinho de quem afaga um piá adormecido. Passeavam pelos morangos, se demoravam nas flores do maracujazeiro e desapareciam no verde da rama. Parecia que não buscavam só o pólen. Parecia que iam deixando um tantinho de vida por onde passavam.

E a terra respondia. Os tomates ficaram mais graúdos. Os morangos vieram mais doces. O pé de pimenta, que andava meio acanhado, resolveu se cobrir de frutos vermelhos. O pátio inteiro parecia sorrir.

Foi então que me lembrei de uma frase que ouvi certa vez de uma agrônoma:
— Onde tem abelha, a vida sempre encontra o seu caminho.

Naquele instante entendi que ela não falava só da lavoura. Falava da gente. Não é o barulho que faz a vida crescer. É a constância. É a paciência. É o trabalho miúdo que quase ninguém enxerga.

Algum tempo depois, uma gripe daquelas de derrubar vivente me botou de cama. A garganta queimava que nem brasa de angico e o corpo pesava feito tronco molhado. Na feira do produtor comprei um potinho de mel de mandaçaia, prima das jataís. Era um mel claro, cor de amanhecer depois da geada. Tinha cheiro de flor do campo, gosto de querência e um doce que não enjoava. Cada colherada parecia trazer um pedacinho do mato, como se o capão inteiro tivesse se derretido dentro daquele vidro.

Não sei se foi o mel. Não sei se foi o descanso. Ou se foi Deus lembrando que ainda esconde remédio nas coisas mais pequenas da criação. Só sei que melhorei.

Hoje, quando o sol vai se deitando atrás das coxilhas, gosto de sentar no banco de madeira debaixo do ipê. Cuia de mate na mão, fico só olhando. Vejo cada jataí voltar pro ninho trazendo nos pezinhos um punhadinho de pólen. Parecem tropeirinhos chegando da lida, carregando um ouro que dinheiro nenhum compra. Entram, saem e voltam outra vez. Não tem gritaria. Não tem disputa. Não tem vivente querendo aparecer mais que o outro. Cada uma faz a sua parte, como nos antigos mutirões em que um vizinho ajudava o outro sem precisar pedir.

Foi olhando essa lida que entendi uma coisa. A gente vive pensando que grandeza faz barulho. Levanta parede. Liga máquina. Corre pra todo lado. Enquanto isso, uma abelhinha menor que a unha do dedo ajuda a sustentar um pomar inteiro sem que quase ninguém repare. A natureza nunca precisou gritar para mostrar a sua força. Talvez porque quem sabe o que faz não precise provar nada.

Hoje o meu pátio já não conhece mais aquele silêncio de antigamente. Agora ele zune. Mas aprendi que esse zumbido não espanta a paz. É a própria paz trabalhando.

Quando a aragem sacode de leve os galhos do velho ipê e as jataís seguem seu rumo de flor em flor, já nem consigo separar onde termina o bater das asas e onde começa a própria vida. Capaz que nunca tenha existido essa divisa. Porque Deus, que podia esconder seus milagres nas montanhas ou nas tempestades, resolveu guardar um dos mais bonitos dentro de uma abelhinha sem ferrão.

E desde aquele dia, sempre que alguém me pergunta o que mudou no meu pátio, eu respondo sorrindo:
— O silêncio aprendeu a voar.

Onde antes morava o silêncio,
Hoje mora um doce zumbido;
Cada flor beijada por uma jataí
É um pedaço do mundo renascido.
E quem escuta a voz da querência
Aprende, sem ninguém ensinar,
Que Deus faz os maiores milagres
Nas asas pequenas de um simples voar.

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